Climate Governance é o assunto da semana

Fatos e posicionamentos os mais diversos estão ocorrendo essa semana abordando alterações climáticas, podendo ser agrupados sob a denominação de Climate Governance. Essa governança se expressa nas tipologias de governança ambiental global, que se alinha com segurança nacional, e de governança horizontal (redes transnacionais municipais), que se alinha com a autonomia de estados para estabeleceram protocolos de cooperação internacional.

Em seu discurso a formandos da Academia da Guarda Costeira, presidente Barack Obama deixou claro o alinhamento entre alterações climáticas e segurança nacional. Obama fez questão de enfatizar que climate change (CC) está se tornando uma ameaça à segurança nacional e ressaltou que a elevação de 1 foot (+- 30 cm) ao nível do mar até o final do século vai custar $200 bilhões aos Estados Unidos. Para reforçar seu argumento, comentou que os eventos ocorridos na Nigéria e a guerra civil na Síria estão atrelados às questões de clima.

A Casa Branca disponibilizou vídeo com o  discurso do presidente e o Washington Post editou o excerto em que Obama ressalta a relação entre CC e segurança nacional. Vale lembrar que o presidente dos Estados Unidos não é o único a casar esses elementos. O Almirante aposentado Len Hering fez uma conferência em San Diego (CA), em março de 2015, que teve como título: Positioning ourselves to address the future: national security and climate change. Na Europa, em março do ano passado, durante a Circle 2 Conference e falando no último painel, Patrick Pringle, do Reino Unido, disse que as experiências com inundações na Inglaterra e outros eventos conduzem a colocar adaptação a CC como um “security issue“.

Na outra ponta, está a governança em rede que nasce nos anos 70 do século passado e que tem na C40 (Cities Climate Leadership Group) um de seus símbolos. Em Sacramento (CA), 12 estados de 7 diferentes países assinaram um protocolo para redução de emissões, no dia 19 de maio de 2015. Entre os estados, o Acre, no Brasil, e o da Califórnia, nos Estados Unidos. O acordo é chamado de Under 2 MOU e estabelece como metas a redução de emissões entre 80 e 95% abaixo nos níveis de 1990 em 2050 ou atingir a meta de emissão anual per capita menor que 2tCO2 em 2050. O acordo permite que cada um dos governadores possa desenhar seus planos respeitando as necessidades locais. O per capita mundial é 4.51tCO2, sendo que para os Estados Unidos é 16.15 e para o Brasil é 2,22tCO2.

Em matéria de Política Global do Clima, Canadá submeteu sua INDC  se comprometendo a reduzir suas emissões em 30% abaixo de 2005 até 2030.

Oil Spill Santa Barbara 2015Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que a costa da cidade de Santa Barbara (CA), considerada a Riviera Americana, está coberta por um líquido preto e viscoso, devido a um vazamento de óleo cru de um cano que estourou. A responsabilidade é da empresa Plains All American Pipeline. A foto é de Lara Cooper do jornal local de Santa Barbara, Noozhawk.

 

Os dados sobre emissões per capita estão no relatório da International Energy Agency (IEA), Highlights 2014,  publicado em dezembro de 2014 para servir de guia para as discussões na COP20 Lima (Peru).

Agenda da comunidade, dinheiro público e adaptação pós catástrofe

Fiquei muito tocada pelo trabalho de Alejandro Avarena na reconstrução de espaços pós desastres naturais. Não sabia que ele desenvolvia trabalhos sociais de grande magnitude, sendo uma empresa privada. Também não sabia de sua sensibilidade para com o lado humanidade – as pessoas dentro das cidades, usufruindo de espaços nas cidades, experenciando as cidades.

Enquanto assistia a sua recente participação  no Ted Talk não tirei os olhos da tela de 15” de meu lap top em full screen. Alguns tópicos me chamaram a atenção e eu resolvi sistematiza-los aqui no Blog Entreposto: participação popular, revitalização de espaços pós catástrofe (desastres naturais) e dinheiro público.

Durante sua palestra no Ted Talk, ele aponta que fazer trabalhos bottow-up com a participação da comunidade requer um processo de escuta ativa sobre a agenda da comunidade para que o resultado concertado se transforme num mix da agenda de outros com a agenda da comunidade. Ele comenta sobre o vídeo feito durante a reunião pública convocada para a reconstrução do espaço.

Alejandro Aravena: I don’t know if you were able to read the subtitles, but you can tell from the body language that participatory design is not a hippie, romantic, let’s-all-drink-together-about- the-future-of-the-city kind of thing …

Em 2010, Chile vivenciou o desastre natural – terremoto e tsunami – de magnitude 8.8 da escala Richter e a empresa de Alejandro foi chamada para fazer a reconstituição de um espaço no sul do país e obras de adaptação para a mitigação de futuras catástrofes.

Alejandro Aravena: We were given 100 days, three months, to design almost everything, from public buildings to public space, strictly the transportation, housing, and mainly how to protect the city against future tsunamis. 

O trabalho por ele desenvolvido também mostra que a revitalização de espaços públicos pós desastre deve levar em conta os meandros culturais de sua população. Ao falar sobre as alternativas possíveis para o uso do solo, ele aponta como as diferenças culturais podem tornar ou não uma alternativa viável.

Alejandro Aravena: Forbid installation on ground zero. Thirty million dollars spent mainly in land expropriation. This is exactly what’s being discussed in Japan nowadays, and if you have a disciplined population like the Japanese, this may work, but we know that in Chile, this land is going to be occupied illegally anyhow, so this alternative was unrealistic and undesirable. 

Não só as questões culturais de ocupação do solo, mas acima de tudo, as percepções do uso do solo e a identidade com o solo que a população possui, foi o que levou o arquiteto a realmente considerar o que as pessoas estavam dizendo ao fazer política pública e obras de adaptação frente as alterações climáticas.

De acordo com Alejandro: And what they said was, look, fine to protect the city against future tsunamis, we really appreciate, but the next one is going to come in, what, 20 years? But every single year, we have problems of flooding due to rain. In addition, we are in the middle of the forest region of the country, and our public space sucks. It’s poor and it’s scarce. And the origin of the city, our identity, is not really connected to the buildings that fell, it is connected to the river, but the river cannot be accessed publicly, because its shores are privately owned.

A escuta ativa e a necessidade de obras de adaptação para a prevenção de futuros tsunami, leva a equipe do arquiteto a pensar um projeto de ocupação do espaço público que contemplasse as duas demandas: prevenção e acesso ao rio.

Alejandro Aravena: So we thought that we had to produce a third alternative, and our approach was against geographical threats, have geographical answers. What if, in between the city and the sea we have a forest, a forest that doesn’t try to resist the energy of nature, but dissipates it by introducing friction? A forest that may be able to laminate the water and prevent the flooding? That may pay the historical debt of public space,and then may provide, finally, democratic access to the river. So as a conclusion of the participatory design, the alternative was validated politically and socially, but there was still the problem of the cost: 48 million dollars.

Se há inovação na busca por uma resposta geográfica para um problema geográfico, há mais inovação ainda de como buscar o dinheiro para financiar as obras de adaptação. A equipe realizou uma pesquisa sobre financiamento público dentro dos orçamentos públicos em diversos níveis de governo e apontou, segundo Alejandro:

there were three ministries with three projects in the exact same place, not knowing of the existence of the other projects. The sum of them: 52 million dollars. So design’s power of synthesis is trying to make a more efficient use of the scarcest resource in cities, which is not money but coordination. By doing so, we were able to save four million dollars, and that is why the forest is today under construction

Após assistir ao Ted Talk do arquiteto chileno Alejandro Aravena, filmado em outubro de 2014, percebo cada vez mais que Adaptação para as Alterações Climáticas (e obras de adaptação para mitigar desastres naturais e catástrofes) requer um approach holístico, integral.

Também percebo que há lições aprendidas que indicam que a instância governamental, se quiser responder a seus cidadãos, precisa de dois ingredientes fundamentalmente humanos: ouvir e coordenar. Escutar o que as pessoas tem a dizer e os hábitos culturais que fazem delas o que elas são. Coordenar e agregar esforços o que é produto da inteligência e do engenho humano.

Biografia e currículo de Alejandro Aravena.

Vídeo e Transcrição Ted Talk de Alejandro Aravena.