Sujeito ecológico: um ser ainda em formação (I)

A leitura de Inteligência Ecológica de Daniel Goleman me fez considerar plausível a premissa por ele defendida de que como seres humanos ainda não somos seres ecológicos e daí nossa necessidade de novos aprendizados cerebrais para que possamos agir de maneira mais sustentável em relação ao meio ambiente.

Ele explica que o circuito de alarme cerebral que possuímos está pronto para identificar objetos lançados contra nós, expressões faciais ameaçadoras, animais que rosnam para nós e perigos similares no meio físico imediato que nos cerca. Esse mecanismo nos ajudou a sobreviver até hoje.

No entanto, segundo Daniel, nada em nosso passado evolutivo como espécie moldou nosso cérebro para detectar ameaças menos palpáveis como aquecimento do planeta, disseminação de químicos no ar e no alimento, e destruição da fauna e na flora. A explicação científica é porque as ameaças ecológicas estão abaixo do nível de capacidade de registro sensorial que o cérebro é capaz de realizar.

Daniel explica: “O cérebro humano foi sintonizado para ser hipervigilante na detecção de perigos em um mundo que não mais habitamos, enquanto que o mundo no qual vivemos hoje apresenta perigos abundantes que não vemos, ouvidos ou provamos. […] nosso cérebro é inadequado às ameaças que enfrentamos no front ecológico: são perigos que surgem gradualmente, seja no nível microscópio, seja no nível  global. O cérebro humano foi singularmente sintonizado para captar mudanças na  luz, som, pressão etc., em uma faixa limitada – a zona de percepção em que  detectamos a presença de um tigre ou de um carro desgovernado vindo em nossa direção. Essas ameaças estimulam nosso sistema a reagir em milissegundos:  sentimos essas ameaças familiares com tanta clareza quanto enxergamos um fósforo que se ascende em um quarto escuro.

[…] As mudanças ecológicas que sinalizam perigo iminente estão abaixo do limiar e se mostram demasiadamente sutis para ser registradas em nossos sistemas sensoriais. Não dispomos de detectores automáticos voltados para essas fontes de perigo indefinidas, tampouco respostas instintivas a elas. O cérebro humano adaptou-se a identificar os perigos dentro de seu campo sensorial. No entanto, para sobreviver hoje, precisamos perceber ameaças que estão além do limite de nossa percepção” (pp. 30-31).

Ou seja, nosso hardware está preparado para reconhecer perigos e ameaças imediatos e a reagir rapidamente, pois tudo se processa no nível sensorial. Porém não está preparado para reconhecer os perigos e as ameaças que ocorrem gradualmente. E as ameaças ambientais são graduais, estão ocorrendo de pouco em pouco, um dia atrás do outro. Portanto, necessitamos lançar mão do backup, um sistema com capacidade para processar informação não programada que, despertando o sistema de alarme, permita uma reação imediata.

Diz Daniel: “O neocórtex, parte mais complexa do córtex cerebral, evoluiu como nossa mais versátil ferramenta neural para a sobrevivência – tudo que os circuitos reflexivos internos de nosso cérebro não podem nos ajudar a entender o neocórtex pode descobrir, compreender e organizar, conforme seja necessário. Podemos apreender as conseqüências hoje ocultas do que fazemos, e o que fazer a respeito delas – e, assim cultivar a capacidade adquirida de compensar a fraqueza de nossas maneiras pré-programadas de perceber e pensar. A variedade de inteligência ecológica de que a humanidade necessita tão urgentemente demanda que essa zona generalista trabalhe lado a lado com os módulos cerebrais especializados em alarme, medo e repulsa. A natureza projetou o córtex olfativo para navegar em um universo natural de odores que raramente encontramos hoje; a rede neural da amígdala correspondente ao alarme dispõe de um mecanismo inato e eficaz de reconhecimento de uma limitada gama de perigos e, em grande parte, antiquada. Essas áreas não são facilmente programadas, se é que podem ser programadas. Mas nosso neocórtex – por meio do qual aprendemos intencionalmente – pode compensar nossos pontos cegos naturais” (p.41).

As colocações catastróficas veiculadas por parte do movimento ambientalista internacional já têm surtido efeito. Pesquisas de opinião apontam que os indivíduos estão sensibilizados para os perigos e as ameaças ambientais. A atitude já pode ser entendida como consolidada: a sobrevivência da espécie humana implica o uso racional de recursos e a preservação da natureza. O vazio continua na efetividade da prática. As ações e as práticas cotidianas dos mais de 7 bilhões de indivíduos residentes no Planeta Terra ainda estão em descompasso com essa atitude e se apresenta em diferentes níveis dentro de uma escala de práticas e consumo sustentáveis. Pesquisa sobre o uso racional de água em edificações verticais com hidrômetros individuais na Asa Norte no Plano Piloto em Brasília-DF, realizada em 2007, como trabalho de conclusão do curso de Comunicação pelo UniCEUB, mostra o distanciamento entre discurso e prática: cuidados com o meio ambiente foram considerados importantes mas fechar a torneira enquanto escova os dentes ou lava a louça não foram práticas ecológicas encontradas entre a população entrevistada.  A série de pesquisa do Instituto Akatu sobre consumo consciente também evidencia que o entendimento sobre a necessidade de cuidados com o meio ambiente e os recursos naturais existe entre os consumidores, mas que as práticas também estão descompensadas seja em relação ao produto que compra, seja no ato de apagar ou não a luz quando sai de um cômodo para outro dentro de casa.

Referência:

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Ecológica: o impacto do que consumimos e as mudanças que podem melhorar o planeta. RJ: Elsevier, 2009.

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Sujeito ecológico: um ser ainda em formação (II)

Se parte do livro Inteligência Ecológica foi dedica às explicações do funcionamento de nosso cérebro em relação ao meio ambiente, outra foi dedicada à Educação Ambiental, genericamente falando. Nesse sentido, Daniel entende que a inteligência ecológica começa com o conhecimento dos impactos, passa para defesa de melhorias e depois chega ao compartilhamento do aprendizado. Segundo ele, só muita informação compartilhada com todos poderá salvar o planeta e nos fazer consumir de modo mais sustentável.

No livro, Daniel Goleman considera que o consumidor pode e deve fazer a diferença como vetor de pressão para que produtores, distribuidores e comerciantes modifiquem suas práticas em direção à sustentabilidade. Segundo ele, a transparência radical (informação sobre cada etapa da cadeia produtiva) é a arma do consumidor. Levando em consideração que Daniel vive no Hemisfério Norte, cujo volume de consumo e de acumulação é 7 vezes maior que os demais habitantes do Planeta Terra faz sentido ele se posicionar como um sujeito incomodado com o consumo excessivo, desnecessário e doentio e emprestar sua voz e seu prestígio para a mobilização em defesa da sustentabilidade e em defesa de uma nova cultura de consumo.

Para redigir o livro, Daniel conversou com pessoas que estão tratando de fazer a diferença nas áreas industriais e da Ciência. E também procurou conhecer novas abordagens, sendo uma delas a Análise do Ciclo de Vida (ACV) dos produtos. A caminhada dele o leva a concluir que “verde é um processo, não uma condição – temos de pensar em “verde” como verbo, não como adjetivo. Essa alteração semântica poderia auxiliar a nos concentrarmos mais no sentido de tornar os produtos verdes” (p. 25).  Além disso, há uma crítica muito séria ao greenwashing (expressão que se refere às publicidades que tentam mascarar um desempenho ambiental fraco por parte do anunciante). No Brasil, medidas do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) estão em vigor desde agosto de 2011.

A partir da abordagem ACV, Daniel também percebe a necessidade de uma Matemática que possa fornecer métricas que contemplem sistemas complexos, pois os cálculos unidemensionais que focam um único problema deixando muitos aspectos de fora se revelam pouco acurados, ainda mais se se quer falar em verde, sinônimo de produto de nenhum ou quase nenhum impacto negativo ao meio ambiente ou como produto mais sustentável. Pois, como ele mesmo diz, qualquer intervenção em um sistema complexo tem efeitos colaterais não-intencionais. Um dos exemplos dado por ele, dentre outros, está na página 50 do livro: “as objeções ao rastro de carbono da água mineral engarrafada levaram muitos restaurantes a deixar de oferecê-la e algumas pessoas passaram a reutilizar as garrafas de plástico depois que a água acabava. Mas a resposta ecologicamente correta aos impactos ambientais das garrafas deixara de lado outro aspecto negativo: o uso de garrafas plásticas impunha impactos potencialmente adversos para a saúde, em função das substâncias químicas que vazam para a água engarrafada. O bisfenoal-A(BPA), substância à qual se atribuem problemas no sistema endócrino, presente em muitos plásticos, é transmitido aos líquidos 55 vezes mais rápido do que o normal se o líquido estiver aquecido […]”.

A abordagem ACV, junto com a necessidade de cálculos matemáticos não-unidemensionais, também fez Daniel olhar para a questão semântica do adjetivo local, sem deixar de reconhecer os benefícios econômicos e ambientais ao permitir que emprego e salários estejam concentrados na localidade e que o rastro de carbono seja menor. Daniel trouxe o depoimento de uma ecologista industrial que monitorou a geografia dos ciclos de vida dos tomates cultivados em estufas perto de Montreal: as atividades de P&D foram realizadas na França, as sementes cultivadas na China, levadas de volta para a França e enviadas para Ontário, onde as sementeiras germinavam, e depois levadas de caminhão para Quebec, onde a planta final é cultivada e o fruto colhido. Ou seja, esse tomate local tinha um passado global (p. 48).

Enfatizando a transparência radical a partir de dados cientificamente acurados (sound science), surge o GoodGuide uma plataforma disponível ao público, ainda em teste, que permitirá com um código simples verde – vermelho e amarelo indicar ao consumidor qual a ACV e em que parte da cadeia produtiva o produto é mais danoso ou benéfico ao meio ambiente. A plataforma expulsa o dado de consulta a partir da reunião de bancos de dados avulsos que as empresas construíram para informar aos acionistas ou stakeholders sobre a empresa e o valor de seus papéis.

Post no Blog Mais com Menos sobre o livro Inteligência Ecológica cita outros locais onde encontrar informações sobre o impacto dos produtos e das empresas. Ou seja, quais instrumentos estão disponíveis para fabricar, distribuir, comercializar e comprar de modo mais sustentável. Reproduzo aqui parte do post do Mais com Menos:

Além do norte-americano GoodGuide, também é possível encontrar  boas referências nos guias: Catálogo Sustentável, Guia de Empresas e Produtos e  Guia de Eletrônicos Verdes.

Catálogo Sustentável foi criado e é atualizado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (GVces), relaciona produtos e serviços destacando suas características em relação a matéria-prima, certificações, reciclagem, critérios sustentáveis e outros.

Guia de Empresas e Produtos é administrado pelo Instituto Akatu, classifica as empresas de acordo com suas práticas de responsabilidade social.

Guia de Eletrônicos Verdes é atualizado pelo Greenpeace, relaciona as várias
fabricantes de eletrônicos de acordo com o impacto de seus produtos.

Serviço:

Consumo norte-americano

Infográficos sobre consumo norte-americano

Referência:

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Ecológica: o impacto do que consumimos e as mudanças que podem melhorar o planeta. Tradução de Ana Beatriz Rodrigues. RJ: Elsevier, 2009.