Governança da Atmosfera: um passo inevitável na política global do clima

Nobody is doing but they are talking about …
Margaret Leinen, pesquisadora em paleo-climatologia e paleo-oceanografia

Ninguém está fazendo pesquisa, mas todos estão falando sobre o assunto é como a diretora do Scripps Oceanography Institute, da Universidade da California (UCSD), Margaret Leinen estabeleceu sua plataforma para falar sobre Mudança Climática e Geo-engenharia, também conhecida como Intervenção Climática (Climate Intervention) ou Engenharia Climática. atmosphere-earth1 Intervenção Climática é um assunto polêmico com sérias implicações éticas e que vem ganhando terreno pois se apresenta como a solução tecnológica para o fato de que a redução de emissões está ainda longe de garantir a estabilização em 2oC. Esse caminho implica fazer intervenções na atmosfera, essa camada fina de gases de mais ou menos 100 quilômetros, considerada o dedo mágico que permite reunir na Terra as condições de vida para todas as espécies, entre elas a espécie humana. 

Essa aposta em Climate Intervention não é da ciência, mas do mercado. Segundo a diretora do Instituto, a indústria de petróleo e carvão norte-americana vem trabalhando com a ideia de que, quando for aprovada a política de precificação do carbono emitido, ele (preço) ficará estabilizado em oito dólares a tonelada e que, portanto, será eficiente sequestrar carbono da atmosfera. Essa visão estratégica e de gerenciamento de risco já torna público o que estão fazendo outras indústrias como a Dupont e a Gates: patentes. Estima-se que mais de 25 patentes sobre técnicas e métodos para sequestro de carbono e bio-engenharia climática já estejam registradas. Uma delas, por exemplo, é o experimento de usar sulfato de ferro nos oceanos para aumentar o volume de plânctons com o objetivo de absorver CO2.

Em sua palestra, no Center for Ethics in Science & Techonology, Margaret Leinin (foto) margaret-leinen-1comenta que, no momento, a ciência não tem recebido alocação de recursos públicos para pesquisa em Intervenção Climática, seja nos Estados Unidos seja na Europa. Segundo ela, há conversas entre os cientistas sobre a necessidade da investigação e as implicações éticas de tal empreendimento.

Intervenção Climática é o termo guarda-chuva para duas técnicas e outras delas derivadas: a remoção de gás carbónico ou GGR (greenhouse gas removal) ou CDR (carbono dioxide removal), e métodos de reflexão da luz solar ou SRM (solar radiation management ou albedo management). Detalhes e impactos estão descritos no Relatório Técnico 84 de outubro de 2016 da secretaria da Convenção da Biodiversidade. O Relatório 84 (páginas 30-40) traz uma síntese de como as técnicas de CDR e SRM estão posicionados no relatório AR5, e seu conjunto de documentos, publicado pelo Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC), em 2015.

Crédito: Blog End Time Headlines, 2012

Crédito: Blog End Time Headlines, 2012

Ao externar sua opinião pessoal, Margaret Leinen defende que fazer pesquisa não é fazer uso da pesquisa e que investigar o assunto é necessário pois muitos cientistas não estão convencidos de que sequestrar carbono da atmosfera será efetivo. Segundo ela, pesquisa sobre Intervenção Climática é uma “insurance policy ” (apólice de seguro) que permite compreender e conhecer a ferramenta se for necessário um dia utilizá-la.

Selecionei três pontos que considero fundamentais na discussão sobre Ética e Intervenção Climática, aproveitando o que Margaret Leinen apresentou durante sua palestra (dezembro, 2016):

Ética – Duas considerações éticas envolvem o assunto Climate Intervention: moral harzard (perigo moral) e slippery slope (terreno escorregadio). Avançar com a investigação e o uso dela pode provocar uma estagnação e uma inércia na tendência e na motivação para fazer as transformações necessárias de combate às mudanças climáticas e isso é o perigo moral. quadroTambém é um terreno escorregadio pois a investigação de geo-engenharia pode acelerar uma tendência e os resultados podem se transformar em desastre. Na tentativa de manter o uso da pesquisa circunscrito às questões éticas, a Convenção da Biodiversidade, desde 2010, estabelece diretrizes de que nenhuma atividade de geo ou bio-engenharia pode ser desenvolvida sem que tenha base científica.

Governança – Como governar o sequestro de carbono da atmosfera? Quais as implicações legais a respeito de Intervenção Climática? Com essas perguntas Margaret tratou de enfatizar que o clima é um bem comum que afeta a todos, ainda que de forma diferente, e que a atmosfera também é um bem coletivo. Ela exemplificou a situação afirmando que aerossóis aplicados em nuvens vão de um polo a outro em um ou dois meses e que podem circular ao redor do globo em duas semanas, causando diferentes impactos em diferentes partes do planeta. Ou seja, o que parecia bom para a área geográfica X não será bom para a área geográfica Y, que será afetada de maneira prejudicial uma vez que os aerossóis estão circulando planetariamente. Segundo Margaret, é consenso internacional de que a legislação sobre o uso de gases (convenção sobre armas químicas e biológicas) é a que se aplica caso algum governo ou alguma empresa privada comece a atuar no sequestro de carbono na atmosfera no presente momento. Também é importante considerar a experiência com a governança espacial em relação a satélites de uso militar, cientifico e comercial que está nas mãos das Nações Unidas, UN Outer Space Affairs.

Coletividade – As soluções para as questões do clima impõem ações coletivas e atenção voltada para sistemas e não tanto para ações individuais. As ações individuais práticas se traduzem em limitada redução de emissões de carbono enquanto que as ações coletivas que induzem a diferentes usos individuais são as que produzem resultados no montante de emissão local, regional e global. Posto isso, a diretora Margaret Leinen defende que ampliar a participação do público é importante assim como envolver o mercado e os negócios. Segundo ela, tanto a pressão popular como as empresas é que são os grandes impulsores para a produção de eletricidade de base carbono neutro e são também os players em assuntos como Intervenção Climática.

A íntegra da palestra está disponível na UCSD TV a partir de 17 de janeiro de 2017.

Avanços para o Clima e fim da emergência para Zika

O Acordo de Paris está em vigor desde 4 de novembro e começou a ser implementado dentro da COP 22 (Marrakech Climate Change Conference of the Parties), que terminou no dia 18 de novembro.

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Giant Family outside UN Climate Conference venue in Marrakech. Fonte: UNFCCC

As Decisões – CMA-1 (Meeting of the Parties to the Paris Agreement) sobre o Acordo de Paris são de reforçar a necessidade de financiamento para a transição para uma economia de baixo carbono e de transparência nas métricas de emissões reportadas pelos países. Tudo isso escrito no Ato de Proclamação de Marrakech.

Fico me perguntando se a visão obtusa da futura Administração Trump vai deixar aos chineses a liderança econômica de energia renovável. Se isso acontecer, penso que estará em jogo para os Estados Unidos perder a onda green de expansão econômica de base tecnológica. Aqui no Blog Entreposto apontei que a China será economicamente superior aos Estados Unidos em 2020, segundo projeções, e sua estratégia é aumentar em 20%, até 2030, a sua fatia de energia limpa, o que corresponde atualmente a toda a energia gerada pelas usinas movidas a carvão do país. No ensaio que escrevi sobre como o ano de 2014 foi decisivo, em escala global, para as mudanças climáticas comento que a onda de desenvolvimento para a China é a inovação tecnológica ligada a energia renovável. E os chineses continuam crescendo (6,7% em 2015), a um ritmo menor é verdade que no início do século, enquanto que os Estados Unidos estão estagnados na faixa dos 2% (2,4% em 2015 e 16 e uma projeção de 2,2% para 2017).

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Reduzir as emissões aplicando tecnologia renovável está se tornando um excelente negócio. Europa que o diga (verde no mapa)!

Mas os aspectos ambientais relacionados ao clima vão mais além que apenas reduzir emissões. Alguns estragos e impactos só podem ser minimizados com outro tipo de tecnologia. A da própria natureza, ou seja, infraestrutura verde como pântanos, duras e replantios de espécies nativas como forma de preservar o solo, evitar erosão e amortecer o impacto de furações e tempestades tropicais.

Como não dá para tirar a natureza de nossas vidas (e ela insiste em nos lembrar que fazemos parte dela!), escrevi sobre a dificuldade de convivência e adaptação com os mosquitos que os humanos mostram ter. blogue-ats-zikaAbordei o assunto no post sobre Zika que escrevi para o Blogue ATS do Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL).

No post, escrevo sobre minhas reflexões sobre a significação da doença e aponto que literacia científica e foco no local são caminhos para a adaptação entre homem e mosquito. As reflexões têm por base minha experiência com a investigação social para a resposta à emergência decretada em 1 de fevereiro de 2016. No dia 17 de novembro, Zika deixou de ser uma emergência de saúde pública international, em declaração feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Zika, segundo a nota oficial da OMS, passa a integrar os programas de saúde continuados.