Interstellar (2): discurso prometeico, a dimensão espaço-tempo e o amor

Fomos ao filme Interstellar e combinamos escrevermos umas linhas com nossas opiniões sobre o que vimos. O primeiro trecho do post é de autoria de José Sousa, Economista (Portugal). O segundo é de autoria de Josiel Silva, Físico (Brasil) e o terceiro é de minha autoria.

José Sousa: Já suspeitava que o filme Interstellar seria medíocre. Não como entretenimento, já que é um razoável filme de ficção científica, com uma boa banda sonora. O problema é que tem pretensões de crítica ao desvario humano sobre a Terra, quando se refere a 6 mil milhões de pessoas que queriam ter tudo e por isso deram cabo de tudo! Ou quando surgem os rostos daqueles velhinhos do tempo do “Dust Bowl” dos anos 30 nos EUA, falando da seca e da falta de alimento. Esse desvario teria levado a condições impróprias para a sobrevivência humana no planeta Terra e à necessidade de procurar outro planeta algures nos confins do Universo.

Contudo, ao mesmo tempo, não há qualquer profundidade sobre o que poderia ter  causado tal desgraça; nenhuma referência a alterações climáticas (que acentuarão fenómenos como as tempestades de areia); nenhuma referência ao estilo de vida desregrado da sociedade de consumo, nomeadamente norte-americana (a culpa é do “excesso de população”). Como refere George Monbiot numa excelente crítica no “The Guardian”, este tipo de filme reflecte uma falha do nosso tempo: a ingenuidade de um excessivo optimismo em relação à tecnologia e uma incapacidade e um derrotismo em relação à capacidade de mobilização política para resolver os problemas; como ele diz “antes morto, que diferente”. Recomendava antes os seguintes filmes: The Years of Living Dangerously ou The Age of Stupid.

Josiel Silva: Apesar de o filme Interstellar se perder um pouco no roteiro, quando muda drasticamente de rumo, ao mostrar um vilão que não cabia naquele contexto científico, eu achei muito interessante a discussão, mesmo como um pano de fundo, sobre o conceito quase ininteligível e infalível de TEMPO. Um pai, um pouco irresponsável, deixa sua família para traz, pois pensa que tem condições de encontrar outro planeta habitável nesse quase infinito universo. Ele se apodera da Relatividade de Einstein e traz uma sutil discussão sobre o tempo. Passando por um buraco de minhoca num ponto deformado do espaço-tempo, ele viaja a velocidades muito maiores que a luz e, por isso, sua idade biológica (aparência física) não se altera quando comparada com a idade dos que estavam em outros pontos do universo.

Quando descobre que foi enganado, ele volta, tentando reverter no TEMPO, o terrível equívoco cometido, e faz um esforço incomensurável para avisar a sua filha de que há chances de salvar o nosso querido e único Planeta. Ele, então, percebe que não voltou no Passado, mas que estava no atual Presente com o objetivo de modificar o Futuro que seria drástico, caso ele, no Passado, não tivesse se equivocado, para que aí então, no Futuro, acertasse e tudo se reorganizasse naquele atual Presente. O filme termina com o atual pai encontrando a futura filha, e todo o tempo passado é enfim compreendido, não como um ente mensurável e isolado do universo, mas como uma parte integrante de tudo o que existe.

Daí me pergunto: o que seria de nós, humanidade, sem a louca e inalcançável Relatividade do crazy Einstein, que serviu de base para o Interstellar? Não teríamos a menor noção do é, do que foi e do que poderá ser o gigante tempo. Apesar de todo o esforço do filme, saímos com a certeza de que o TEMPO é algo feito para se viver e não para se compreender.

Mônica Prado: Não sabia que ia ver um filme de amor, nem muito menos um filme em que “They” era o nome dado aos invisíveis e aos que possuem dedos mágicos para ajudar os outros a resolver seus problemas, ainda que o problema seja continuar sobrevivendo como espécie no Universo. Interstellar aponta o sentimento de amor e os vínculos afetivos como aqueles que fazem a diferença na hora em que é preciso buscar alternativas para sobreviver. E também aponta os dedos invisíveis – they – como as confluências mágicas que ajudam na hora da crise, no momento decisivo. A força invisível do universo, a inteligência suprema, também chamada de Deus (outros nomes conforme a religião) e de anjos, são o dedo do criacionismo que está presente em Interstellar.

É o amor da filha pelo pai astronauta que a faz observar o relógio e os ponteiros com o código binário permitindo-a resolver o problema da sobrevivência dos humanos no universo. É o amor da cientista por outro cientista que a faz buscar a sua própria sobrevivência e lhe dá um objetivo de vida na imensa solidão do distanciamento galáctico. É o amor do filho do astronauta pelos filhos e pela fazenda que o faz sobreviver e continuar a plantar milho para alimentar a si e a outros até que a poeira consuma os pulmões da mulher e do filho, como já o havia feito com o filho mais velho. Mas também em Interstellar há o desamor disfarçado de amor. O desamor do pai cientista chefe da NASA e a mentira e o engano de que haveria uma missão de retorno ou o desamor do cientista criminoso que mata a outros e a si mesmo em seu amor obsessivo pela missão.

O amor maior em Interstellar é o amor do “They“. O dedo mágico tudo coloca e tudo ajuda para que a sobrevivência da espécie esteja garantia. Não uma sobrevivência pela biotecnologia e seus tubos com DNA e genes humanos que foram preparados para serem levados a outras galáxias. Mas uma sobrevivência que se baseia na interconectividade, no vínculo afetivo, no interesse genuíno por outro ser humano, e acima de tudo no afeto que as pessoas têm umas pelas outras. Interstellar tem muitas mensagens e uma delas é sobre o afeto e a relação mágica entre os acontecimentos.

 

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Agenda da comunidade, dinheiro público e adaptação pós catástrofe

Fiquei muito tocada pelo trabalho de Alejandro Avarena na reconstrução de espaços pós desastres naturais. Não sabia que ele desenvolvia trabalhos sociais de grande magnitude, sendo uma empresa privada. Também não sabia de sua sensibilidade para com o lado humanidade – as pessoas dentro das cidades, usufruindo de espaços nas cidades, experenciando as cidades.

Enquanto assistia a sua recente participação  no Ted Talk não tirei os olhos da tela de 15” de meu lap top em full screen. Alguns tópicos me chamaram a atenção e eu resolvi sistematiza-los aqui no Blog Entreposto: participação popular, revitalização de espaços pós catástrofe (desastres naturais) e dinheiro público.

Durante sua palestra no Ted Talk, ele aponta que fazer trabalhos bottow-up com a participação da comunidade requer um processo de escuta ativa sobre a agenda da comunidade para que o resultado concertado se transforme num mix da agenda de outros com a agenda da comunidade. Ele comenta sobre o vídeo feito durante a reunião pública convocada para a reconstrução do espaço.

Alejandro Aravena: I don’t know if you were able to read the subtitles, but you can tell from the body language that participatory design is not a hippie, romantic, let’s-all-drink-together-about- the-future-of-the-city kind of thing …

Em 2010, Chile vivenciou o desastre natural – terremoto e tsunami – de magnitude 8.8 da escala Richter e a empresa de Alejandro foi chamada para fazer a reconstituição de um espaço no sul do país e obras de adaptação para a mitigação de futuras catástrofes.

Alejandro Aravena: We were given 100 days, three months, to design almost everything, from public buildings to public space, strictly the transportation, housing, and mainly how to protect the city against future tsunamis. 

O trabalho por ele desenvolvido também mostra que a revitalização de espaços públicos pós desastre deve levar em conta os meandros culturais de sua população. Ao falar sobre as alternativas possíveis para o uso do solo, ele aponta como as diferenças culturais podem tornar ou não uma alternativa viável.

Alejandro Aravena: Forbid installation on ground zero. Thirty million dollars spent mainly in land expropriation. This is exactly what’s being discussed in Japan nowadays, and if you have a disciplined population like the Japanese, this may work, but we know that in Chile, this land is going to be occupied illegally anyhow, so this alternative was unrealistic and undesirable. 

Não só as questões culturais de ocupação do solo, mas acima de tudo, as percepções do uso do solo e a identidade com o solo que a população possui, foi o que levou o arquiteto a realmente considerar o que as pessoas estavam dizendo ao fazer política pública e obras de adaptação frente as alterações climáticas.

De acordo com Alejandro: And what they said was, look, fine to protect the city against future tsunamis, we really appreciate, but the next one is going to come in, what, 20 years? But every single year, we have problems of flooding due to rain. In addition, we are in the middle of the forest region of the country, and our public space sucks. It’s poor and it’s scarce. And the origin of the city, our identity, is not really connected to the buildings that fell, it is connected to the river, but the river cannot be accessed publicly, because its shores are privately owned.

A escuta ativa e a necessidade de obras de adaptação para a prevenção de futuros tsunami, leva a equipe do arquiteto a pensar um projeto de ocupação do espaço público que contemplasse as duas demandas: prevenção e acesso ao rio.

Alejandro Aravena: So we thought that we had to produce a third alternative, and our approach was against geographical threats, have geographical answers. What if, in between the city and the sea we have a forest, a forest that doesn’t try to resist the energy of nature, but dissipates it by introducing friction? A forest that may be able to laminate the water and prevent the flooding? That may pay the historical debt of public space,and then may provide, finally, democratic access to the river. So as a conclusion of the participatory design, the alternative was validated politically and socially, but there was still the problem of the cost: 48 million dollars.

Se há inovação na busca por uma resposta geográfica para um problema geográfico, há mais inovação ainda de como buscar o dinheiro para financiar as obras de adaptação. A equipe realizou uma pesquisa sobre financiamento público dentro dos orçamentos públicos em diversos níveis de governo e apontou, segundo Alejandro:

there were three ministries with three projects in the exact same place, not knowing of the existence of the other projects. The sum of them: 52 million dollars. So design’s power of synthesis is trying to make a more efficient use of the scarcest resource in cities, which is not money but coordination. By doing so, we were able to save four million dollars, and that is why the forest is today under construction

Após assistir ao Ted Talk do arquiteto chileno Alejandro Aravena, filmado em outubro de 2014, percebo cada vez mais que Adaptação para as Alterações Climáticas (e obras de adaptação para mitigar desastres naturais e catástrofes) requer um approach holístico, integral.

Também percebo que há lições aprendidas que indicam que a instância governamental, se quiser responder a seus cidadãos, precisa de dois ingredientes fundamentalmente humanos: ouvir e coordenar. Escutar o que as pessoas tem a dizer e os hábitos culturais que fazem delas o que elas são. Coordenar e agregar esforços o que é produto da inteligência e do engenho humano.

Biografia e currículo de Alejandro Aravena.

Vídeo e Transcrição Ted Talk de Alejandro Aravena.