Educador do Clima, assim se revela Mike Hulme (ii)

Depois da palestra The Cultural Functions of Climate, Mike Hulme sentou-se para responder questões dos alunos, professores e investigadores do ICS-ULisboa. Motivado pela pergunta da jornalista e investigadora Carla Gomes, ele diz que se vê atualmente como um educador.

Um educador que trata de dizer aos alunos e ao público que clima é mais que números, carbono, métricas, tecnologia e tratados. Clima, segundo Hulme, faz emergir questões profundas sobre valores humanos e sobre com que, de verdade, as pessoas se importam. O trecho da pergunta de Carla Gomes e a resposta de Mike Hulme (sentado ao lado da investigadora Olivia Bina) está disponível a seguir.

Olivia Bina bem que enfatizou que a pergunta de Carla era mesmo propícia para concluir a sessão de debates que deu a Hulme a oportunidade de expandir e explorar detalhes do argumento que desenvolveu em sua palestra e que está em seu livro atual.

Dessa sessão de perguntas, ressalto três tópicos: visões de mundo, governança e conhecimento.

Sobre visões de mundo, Hulme fala do futuro e que há os que veem o futuro como tecnológico e há os veem o futuro como um retorno às origens. Sobre governança global do clima Hulme é crítico e aponta que os mecanismos de governança estabelecidos acabam por controlar a vida social pelas lentes do carbono. Sobre conhecimento, Hulme traz à tona que não existe apenas uma única maneira de ver o mundo e que todo conhecimento é local ou está localizado, inclusive o produzido pela ciência do clima que está concentrado em nove laboratórios ao redor do mundo. Hulme enfatizou que é necessário expandir o significado de conhecimento local que já não pode ser apenas sinônimo de conhecimento rural, indígena ou algo nostálgico.

Se interessa ouvir sessão de perguntas e respostas na íntegra, ela começa em 1:27’55” no video que está no Canal do ICS no Youtube. Se interessa ouvir os trechos com os assuntos comentados neste post, acesse a playlist.

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Clima e Cultura: as três visões de futuro de Mike Hulme

Três visões de mundo ainda que possam ser apresentadas como independentes e singulares estão na verdade interconectadas tendo no centro a espécie humana e nossa capacidade de tomar decisões e construir o nosso destino. O mundo é o reflexo das escolhas que fazemos de modo coletivo e, até certo ponto, de modo individual. cover-book-weathered-hulme Pois que Mike Hulme renomado geógrafo e cientista do clima fala de seu mais novo livro Weathered: Cultures of Climate (SAGE, 2016) e aponta para um futuro post-climate, afirmando que as questões a serem resolvidas não são técnicas e sim humanas.

A palestra de Mike Hulme no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) marca o início do ano acadêmico 2016-2017 e o assunto clima neste final de ano de 2016 é uma das agendas públicas globais. O Acordo de Paris entrou em vigor no dia 4 de novembro e o presidente eleito dos Estados Unidos estaciona uma nuvem de incerteza sobre as questões climáticas e ambientais depois de ter afirmado na campanha que climate change era um hoax inventado pelos chineses e depois de ter declarado a editores do New York Times que ar puro e água limpa é bom para todos e que ele estava aberto a pensar sobre as questões climáticas abandonando sua posição radical de candidato.

O que são as três visões de mundo de Hulme para o clima? Segundo ele mesmo, essas três visões (Hulme trabalhou construindo cenários para a tomada de decisão política) falam do que vivemos hoje, do que podemos re-inventar e do que podemos incorporar como humanidades. Um excerto desse capítulo do livro foi publicado por Hulme em sua página na Academia.edu.

  • re-securing climate (re – assegurando o clima) pode ser compreendido como aquilo que estamos a contemplar e a viver nos dias atuais. O clima precisa estar contido e controlado para garantir segurança e conforto psicológico a nós humanos a um teto de 2oC/1,5oC.
  • improvised climates (improvisando climas) pode ser compreendido como a possibilidade de entender a necessidade de criar e improvisar ao longo do caminho e a inevitabilidade de que o clima é maior que a nossa capacidade de controle.
  • post-climate (pós-clima) pode ser compreendido como a possibilidade de entender que é preciso abandonar a ideia de uma estabilização controlada e de uma estabilização por improvisação para incorporar a ideia que a questão climática está ligada ao que queremos demostrar que somos como seres humanos.

palestra-mike-hulme-ics-oct-2016A Palestra A. Sedas Nunes Mike Hulme – The cultural functions of climate pode ser assistida n íntegra no Canal YouTube do ICS. As aulas de abertura dos anos acadêmicos são chamadas de Palestra A. Sedas Nunes em homenagem ao fundador Adérito Sedas Nunes. A fala de Mike Hulme começa aos 40’21” e termina aos 1,27’29”. Antes da palestra palavras de boas vindas aos novos acadêmicos e depois da palestra uma sessão de debate entre palestrantes e audiência.