Clima e Cultura: as três visões de futuro de Mike Hulme

Três visões de mundo ainda que possam ser apresentadas como independentes e singulares estão na verdade interconectadas tendo no centro a espécie humana e nossa capacidade de tomar decisões e construir o nosso destino. O mundo é o reflexo das escolhas que fazemos de modo coletivo e, até certo ponto, de modo individual. cover-book-weathered-hulme Pois que Mike Hulme renomado geógrafo e cientista do clima fala de seu mais novo livro Weathered: Cultures of Climate (SAGE, 2016) e aponta para um futuro post-climate, afirmando que as questões a serem resolvidas não são técnicas e sim humanas.

A palestra de Mike Hulme no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) marca o início do ano acadêmico 2016-2017 e o assunto clima neste final de ano de 2016 é uma das agendas públicas globais. O Acordo de Paris entrou em vigor no dia 4 de novembro e o presidente eleito dos Estados Unidos estaciona uma nuvem de incerteza sobre as questões climáticas e ambientais depois de ter afirmado na campanha que climate change era um hoax inventado pelos chineses e depois de ter declarado a editores do New York Times que ar puro e água limpa é bom para todos e que ele estava aberto a pensar sobre as questões climáticas abandonando sua posição radical de candidato.

O que são as três visões de mundo de Hulme para o clima? Segundo ele mesmo, essas três visões (Hulme trabalhou construindo cenários para a tomada de decisão política) falam do que vivemos hoje, do que podemos re-inventar e do que podemos incorporar como humanidades. Um excerto desse capítulo do livro foi publicado por Hulme em sua página na Academia.edu.

  • re-securing climate (re – assegurando o clima) pode ser compreendido como aquilo que estamos a contemplar e a viver nos dias atuais. O clima precisa estar contido e controlado para garantir segurança e conforto psicológico a nós humanos a um teto de 2oC/1,5oC.
  • improvised climates (improvisando climas) pode ser compreendido como a possibilidade de entender a necessidade de criar e improvisar ao longo do caminho e a inevitabilidade de que o clima é maior que a nossa capacidade de controle.
  • post-climate (pós-clima) pode ser compreendido como a possibilidade de entender que é preciso abandonar a ideia de uma estabilização controlada e de uma estabilização por improvisação para incorporar a ideia que a questão climática está ligada ao que queremos demostrar que somos como seres humanos.

palestra-mike-hulme-ics-oct-2016A Palestra A. Sedas Nunes Mike Hulme – The cultural functions of climate pode ser assistida n íntegra no Canal YouTube do ICS. As aulas de abertura dos anos acadêmicos são chamadas de Palestra A. Sedas Nunes em homenagem ao fundador Adérito Sedas Nunes. A fala de Mike Hulme começa aos 40’21” e termina aos 1,27’29”. Antes da palestra palavras de boas vindas aos novos acadêmicos e depois da palestra uma sessão de debate entre palestrantes e audiência.

Avanços para o Clima e fim da emergência para Zika

O Acordo de Paris está em vigor desde 4 de novembro e começou a ser implementado dentro da COP 22 (Marrakech Climate Change Conference of the Parties), que terminou no dia 18 de novembro.

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Giant Family outside UN Climate Conference venue in Marrakech. Fonte: UNFCCC

As Decisões – CMA-1 (Meeting of the Parties to the Paris Agreement) sobre o Acordo de Paris são de reforçar a necessidade de financiamento para a transição para uma economia de baixo carbono e de transparência nas métricas de emissões reportadas pelos países. Tudo isso escrito no Ato de Proclamação de Marrakech.

Fico me perguntando se a visão obtusa da futura Administração Trump vai deixar aos chineses a liderança econômica de energia renovável. Se isso acontecer, penso que estará em jogo para os Estados Unidos perder a onda green de expansão econômica de base tecnológica. Aqui no Blog Entreposto apontei que a China será economicamente superior aos Estados Unidos em 2020, segundo projeções, e sua estratégia é aumentar em 20%, até 2030, a sua fatia de energia limpa, o que corresponde atualmente a toda a energia gerada pelas usinas movidas a carvão do país. No ensaio que escrevi sobre como o ano de 2014 foi decisivo, em escala global, para as mudanças climáticas comento que a onda de desenvolvimento para a China é a inovação tecnológica ligada a energia renovável. E os chineses continuam crescendo (6,7% em 2015), a um ritmo menor é verdade que no início do século, enquanto que os Estados Unidos estão estagnados na faixa dos 2% (2,4% em 2015 e 16 e uma projeção de 2,2% para 2017).

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Reduzir as emissões aplicando tecnologia renovável está se tornando um excelente negócio. Europa que o diga (verde no mapa)!

Mas os aspectos ambientais relacionados ao clima vão mais além que apenas reduzir emissões. Alguns estragos e impactos só podem ser minimizados com outro tipo de tecnologia. A da própria natureza, ou seja, infraestrutura verde como pântanos, duras e replantios de espécies nativas como forma de preservar o solo, evitar erosão e amortecer o impacto de furações e tempestades tropicais.

Como não dá para tirar a natureza de nossas vidas (e ela insiste em nos lembrar que fazemos parte dela!), escrevi sobre a dificuldade de convivência e adaptação com os mosquitos que os humanos mostram ter. blogue-ats-zikaAbordei o assunto no post sobre Zika que escrevi para o Blogue ATS do Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL).

No post, escrevo sobre minhas reflexões sobre a significação da doença e aponto que literacia científica e foco no local são caminhos para a adaptação entre homem e mosquito. As reflexões têm por base minha experiência com a investigação social para a resposta à emergência decretada em 1 de fevereiro de 2016. No dia 17 de novembro, Zika deixou de ser uma emergência de saúde pública international, em declaração feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Zika, segundo a nota oficial da OMS, passa a integrar os programas de saúde continuados.