Água e a adaptação para Alterações Climáticas

Resolvi re-publicar aqui o comentário que Luciana deixou em Outras Palavras a respeito do artigo sobre a falta de água em São Paulo. Eis o que Luciana escreveu e os links que postou para fortalecer o argumento de que o “Brasil está em colapso”.

Luciana

É só dar uma volta rápida por São Paulo para ver a imensidão de novos prédios sendo construídos. O aquecimento de água dos prédios modernos é a gás que gasta 200% mais água que o chuveiro elétrico. Alguém faz alguma coisa??? http://sustentabilidade.allianz.com.br/?2131/quem-e-mais-economico-chuveiro-eletrico-ou-aquecedor

A cidade não pode continuar inchando indefinidamente já que os recursos são finitos. Ocupação desordenada do solo onde se constrói em áreas de preservação, nascentes e fica por isso mesmo. “Já foi né, agora deixa como está”.

O entorno dos reservatórios que é área de preservação permanente está cheio de construções e ninguém vê. As matas ciliares são suprimidas e ninguém vê. Os municípios despejam esgoto sem tratamento e ninguém vê.

Não é sé só na capital. É no estado de São Paulo. O que se tornou o Estado de São Paulo? Um imenso canavial. http://www.unesp.br/aci/jornal/228/cana.php

O problema não é só no estado de São Paulo, é em todo canto do Brasil: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2014/05/29/interna_gerais,533764/cidades-mineiras-enfrentam-falta-de-agua-nos-reservatorios-do-rio-sao-francisco.shtml

A previsão do próprio governo para 2015 é que 55% dos municípios DO BRASIL terão problemas com falta de água.

http://www.abes-mg.org.br/visualizacao-de-clippings/pt-br/ler/538/falta-de-agua-pode-afetar-55-das-cidades-ate-2015

Metade dos municípios do Brasil tem ZERO de tratamento de esgoto. http://www.abes-mg.org.br/visualizacao-de-clippings/pt-br/ler/2555/quase-metade-das-cidades-do-pais-nao-tem-rede-de-esgoto

No Brasil é tudo feito de qualquer jeito, sem planejamento, no imediatismo, sem pensar a longo prazo, as normas não são cumpridas. Dá menos trabalho regularizar o irregular do que fazer a coisa certa. Deixa estragar e depois gasta milhões para tentar recuperar. Parece que assim pensam os administradores públicos.

Ao invés de ficar se preocupando em se espelhar no futebol da Alemanha deveriam se espelhar na administração pública da Alemanha, país onde aterro sanitário é coisa do passado, país que aproveita lixo, esgoto para gerar divisas, entre tantos outros bons exemplos.

http://www.revistatae.com.br/noticiaInt.asp?id=4789

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/06/cidades-alemas-conseguem-transformar-esgoto-em-eletricidade.html

http://www.aegea.com.br/2013/03/26/o-brasil-medieval-um-retrato-do-tratamento-de-agua-e-esgoto-no-brasil/

O Brasil está em colapso.

Migração e Alterações Climáticas: algumas reflexões

Acabei de escrever um ensaio sobre migração e alterações climáticas que me permitiu buscar e ir além do discurso mais comum (alarmista) de que haverá migração em massa por conta das alterações climáticas já que a previsão é de aumento do nível do mar e de uma maior frequência e maior intensidade de eventos climáticos como chuvas e tempestades, ciclones, maremotos, secas.

Depois de tanto ler e confrontar as leituras, cheguei a um quadro de análise em que identifico três clusters de posicionamento na agenda pública internacional. E o enquadramento (tratamento) do assunto Migração do ponto de vista operacional.

Os clusters (agenda pública internacional)

O primeiro deles é o cluster da Segurança. Nesse estão incluídos os instrumentos programáticos sobre segurança e preparação de desastres que tem como ponto central o Estado, uma vez que é ele o responsável pela ordem e bem estar de seus cidadãos. Ou seja, a governança é um instrumento de resolução de problemas a ser aprendido e a ser exercitado, que engloba as instalações de proteção e defesa civil, os meios de comunicação e as instalações de segurança e saúde como bombeiros, socorristas e hospitais. Também fazem parte nesse cluster as organizações humanitárias como Red Cross e Doctors Without Borders, dentre outras. E a solidariedade virtual que nasce nas redes sociais e ganha tangibilidade nas doações concretas de roupas, alimentos e remédios, na participação em eventos públicos e no depósito de moedas (recursos financeiros) em contas correntes de entidades de assistência humanitária.

O segundo cluster é o do Direito. Nesse, os líderes são as bancas de advocacia e os integrantes do mercado de seguros que buscam uma legislação apropriada para a proteção do cidadão e dos negócios frente aos impactos das alterações climáticas de toda ordem. Aqui busca-se similaridade com o status de refugiado, em que um Estado acolhe cidadãos dando-lhes plenos direitos de cidadania. De outro lado, busca-se manter as restrições de imigração e conter os deslocamentos populacionais no âmbito doméstico, seja a partir da cooperação de países mais desenvolvidos seja com fundos de apoio a medidas de adaptação às alterações climáticas, as mais conhecidas como soft measures em detrimento das hard measures que são associadas a grandes construções.  Estão inseridos no cluster do Direito universidades, associações e escritórios que trabalham com agências e políticas internacionais. Atualmente não há legislação internacional que proteja o cidadão que se desloca por questões relacionadas a impactos das alterações climáticas. O que há são as medidas humanitárias de longa tradição.

O terceiro cluster é o do Ativismo. Nesse, os ativistas dos mais diferentes naipes e posições no estrato social e no universo planetário defendem posições em favor de uma maior equidade entre os povos e os países. Os ativistas querem equilíbrio de forças, mecanismos para superar a desigualdade, lutam por um chamamento à responsabilidade aqueles mais abastados em favor dos mais necessitados. Os que aqui se reúnem querem saber quem é que paga a conta pelos deslocamentos populacionais resultantes dos impactos das Alterações Climáticas. Os mais ricos (países industrializados) querem apoiar com metodologias e construção de capacidades os países em desenvolvimento para terem a postos seus mecanismos de segurança e vão, com isso, esvaziando o discurso da transferência de recursos financeiros, da criação de fundos e da aceitação de migrantes em condições privilegiadas de cidadania. Aqui o debate esquenta, mas há um mix de vozes que se dispersam e se distanciam ainda que possam ter princípios, de partida, similares para o encaminhamento do problema.

O enquadramento (tratamento operacional)

Na copa do mundinho das Alterações Climáticas (adaptação e mitigação) estão o IPCC e a Convenção-Quadro (COPs). O IPCC está em seu 5o. relatório (o mais recente divulgado no dia no dia 30 de março de 2014) e desde o primeiro tratou de dizer que as alterações climáticas podem provocar deslocamentos populacionais. Usou o termo que, em cada época do lançamento do relatório, era o mais hegemônico dentre as disputas. Começou com refugiados ambientais, seguiu por refugiados ecológicos, voltou para refugiados ambientais, avançou para migração ambiental e nesse último (5o. AR) utiliza deslocamento populacional.

No âmbito do enquadramento explicativo, os relatórios compreendem a população migrante como os que fogem de desastres, secas, inundações, degradação do solo e variedades climáticas de longo prazo. No último relatório, o IPCC aponta a migração como uma medida efetiva de adaptação. Nesse caso, está alinhado com a única vez em que os relatórios das Conferências das Partes (COPs) falaram sobre o assunto. Na COP 16 (Cancun), o relatório convida os países a olhar para medidas de adaptação, dentre elas, o deslocamento, a migração e a recolocação planejada de populações.

O que temos hoje é o enquadramento da migração relacionada a impactos das alterações climáticas como medida de adaptação, que pode ser soft ou hard, que deve ter por base um planejamento, principalmente se a realocação estiver em exame. Se for pontual (eventos extremos) deve estar sob o chapéu da Segurança e das forças do Estado que cuidam da Proteção e da Defesa Civil, tendo como âncora uma governança instalada e em funcionamento. Se for de longo prazo deve estar sob o chapéu do Plano Executivo de Governo, seja de municipalidades ou de outros níveis horizontais (consórcios) e verticais (estaduais/regionais e federais).

A sistematização desse enquadramento operacional e dos clusters de agenda pública tomam por base a longa tradição dos estudos de Migração, dentro da Geografia Humana. A produção do ensaio ajudou a compreender que migração é multi-causal, o que coloca por terra a defesa de um único driver, no caso alteração climática (e os múltiplos impactos), como ponto de partida. E ainda que o ponto de partida da migração (deslocamentos populacionais de maneira abrangente) é sempre enredado, ou seja, ele é começo e fim ao mesmo tempo pois está sempre em ligação anterior ou posterior com a mesma migração (os que vão e os que ficam, os que vão e remetem aos que ficam e os vão porque outros já foram e os que ficam para irem depois). E, por ser enredado, também pode ser diferente em cada lugar apesar de ter na raiz o mesmo problema, pois são os homens e sua relação com o contexto que decidem pela migração.

Além de multi-causal, auto-perpetuada e não-linear, a migração é um engenho humano, força proativa para solução de problemas e busca de novas fronteiras e experiências, sempre envolta em tradições singulares dentro da cultura de um determinado povo. A história da Humanidade contém essas micro histórias de deslocamentos. E elas estão inseridas na história da adaptação do Homem à Terra.

No entanto, quando defrontada com os impactos de alterações climáticas, a migração pode ser a ponta do iceberg que tem por debaixo de si um potencial de conflitos, pois seja à luz de eventos extremos seja à luz de uma adaptação planeada, ela desperta emoções de medo, de insegurança, de perda, de solidariedade, de tragédia, de catástrofe, de esperança e de reconstrução. No âmbito do Ordenamento do Território, uma governança estratégica ajuda a resolver os conflitos e a concertar soluções.