Agência Jovem entrevista porta-voz do Greenpeace Brasil na COP21

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Entrevista e Foto Agência Jovem de Notícias
Por Evelyn Araripe e Luciano Frontelle

Os repórteres Evelyn e Luciano entrevistaram para a Agência Jovem de Notícias o porta-voz do Greenpeace Brasil na COP21, Pedro Telles (foto à direita). Pedro Telles Greenpeace BrasilPedro é um jovem ativista climático, mestre em Sustentabilidade e Mudanças Climáticas, que quando voltou da Inglaterra para o Brasil, entrou para o time do Greenpeace, onde é campaigner de ações relacionadas ao tema Mudanças Climáticas.

Na conversa com o time da Agência, Pedro avaliou a participação da presidente Dilma Rousseff na abertura do evento e a posição do Brasil dentro da Conferência do Clima. Também opinou sobre os fatores de sucesso para a COP21, os investimentos de empresas como Facebook e Microsoft, a expansão da energia solar na Índia e outros 120 países com recurso na ordem de 1 trilhão de dólares e a meta de alguns países serem carbono neutro até 2050. Confira a entrevista!

Agência Jovem – Como você avalia a participação da presidente Dilma no primeiro dia da COP21?
Pedro Telles – O discurso da Dilma não teve grande surpresas. Foram importantes alguns aspectos, como reforçar o valor e a demanda para que as promessas feitas aqui, em Paris, sejam renovadas e elevadas a cada cinco anos. Também defendeu que o acordo de Paris seja vinculante. No geral, a proposta brasileira para a COP21 é frágil. É fraca em termos de desmatamento e é fraca em relação à questão de expansão de renováveis, pois fica aquém do que é possível fazer.

Agência Jovem – O que seria sucesso para a COP21, em sua opinião?
Pedro Telles – Vemos que há duas prioridades absolutas para a gente considerar essa negociação um sucesso. A primeira é que se defina uma meta de longo prazo. O que os países colocaram são metas de 5 e 10 anos. Além dessas metas de curto prazo tem que ter uma de 100% de energias renováveis até 2050. Por que isso? Porque daria um sinal muito claro para o mundo inteiro, para governos, para investidores de que o mundo vai caminhar para zero emissões. Um aspecto importante, portanto, garantir uma boa meta de longo prazo.

Agência Jovem – Que outros aspectos você apontaria?
Pedro Telles – Um segundo aspecto crucial é que essas metas de curto prazo que estão sendo colocadas sejam mais ambiciosas. O Brasil, por exemplo, se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. Consideramos essa meta absurda, pois o que o governo está falando é: “Eu vou tolerar a ilegalidade por mais 15 anos na Amazônia e por mais um prazo indefinido em outros biomas, em outras florestas”. É inaceitável o governo dizer que vai tolerar a ilegalidade. O governo tinha de dizer que vai acabar com o desmatamento agora e torna-lo ainda mais ilegal.

Agência Jovem – E quais são os destaques que você apontaria até aqui para a COP21?
Pedro Telles – No geral, os presidentes demonstraram um compromisso concreto com o novo acordo. Teve uma coisa ou outra interessante. Uma delas é a do presidente do Equador que pediu a criação de uma corte internacional do meio ambiente. Outra é quanto à energia solar. Uma iniciativa é a da Índia puxando 120 países para uma aliança solar que vai focar principalmente na troca de conhecimentos e no apoio mútuo de países em desenvolvimento para a expansão de energia solar, alocando dinheiro, criando uma sede e uma rede que já está constituída para isso acontecer. Eles esperam movimentar 1 trilhão de dólares até 2030 para fortalecer o solar no mundo especialmente no Sul Global. A outra iniciativa é a do grupo de grandes investidores, como Bill Gates, Marck Zuckerberg e [Ratan] Tata, que é um grande empreendedor indiano, se juntando a países para anunciarem um novo fundo para energias renováveis.

Agência Jovem – Mas isso não parece mais uma jogada de marketing?
Pedro Telles – É interessante ver esses atores fazendo isso. No entanto, eles têm que fazer mais do que isso, porque essas são iniciativas pontuais. O que soluciona mesmo o problema é um compromisso concreto, com ações em políticas públicas, para além de só disponibilizar recursos.

Agência Jovem – Mas qual é a grande novidade nessa primeira semana?
Pedro Telles – A principal novidade nesses primeiros dias, na verdade, foi ver um grupo de 43 países, entre os mais vulneráveis no mundo, falando que até 2050 eles têm como meta serem 100% renováveis e carbono neutro. Isso ajuda a levantar muito o nível dessa meta de longo prazo que eu falei e além de pressionar outros países a seguirem esse exemplo.

Solo: recurso para ação de mitigação às mudanças climáticas

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Reportagem e Fotos Agência Jovem de Notícias
Por Milena Rettondini

Quando falamos em mudanças climáticas, o solo não é exatamente a primeira coisa que nos vem à mente. Fala-se das emissões de dióxido de carbono, do derretimento das geleiras, do aumento da temperatura, mas pouco se fala daquilo que temos todos os dias sob nossos pés. O que sustenta nosso mundo, de fato, é um dos fatores-chave que podem ajudar a mitigar os efeitos do aquecimento global.

A principal função de mitigação desenvolvida pelo solo é o armazenamento de CO2, ou seja, a retenção de dióxido de carbono e de outros gases que, se liberados na atmosfera, contribuem para o aumento do efeito estufa. Nas palavras da Agência Europeia do Ambiente, o solo é a “segunda grande piscina”, depois do oceano, que captura o CO2, garantindo que ele não seja liberado na atmosfera.

Dessa forma, na medida em que o solo é danificado pelo desmatamento, erosão, compactação e urbanização, o CO2 contido no subsolo vem à tona, contribuindo ainda mais para o aumento das temperaturas, a acidificação dos oceanos e todas as outras consequências conhecidas. Somente o solo europeu armazena mais de 75 bilhões de toneladas de dióxido de carbono que, a cada dia, são gradualmente liberadas pelas várias atividades humanas. Em termos concretos, o que causamos ao danificar o solo?

O solo oferece gratuitamente uma infinita variedade de serviços que chamamos de ecossistêmicos. Entre os mais importantes estão:

  • conservação da biodiversidade
  • produção de alimentos
  • serviços de apoio (incluindo armazenamento de carbono)
  • regulação da qualidade da água
  • controle da erosão, e
  • proteção contra eventos hidrogeológicos extremos

A questão do uso do solo nas negociações internacionais está inserida na categoria do Land Use Land Use Change and Forestry (LULUCF), há muito reconhecida como elemento importante na mitigação da mudança climática, mesmo que atualmente seja ainda difícil obter dados confiáveis nesta área – já que o monitoramento encontra vários obstáculos. Evento uso do soloComo argumentou Lucia Perugini, do Centro Euro-Mediterrâneo sobre as Alterações Climáticas, em evento dentro da COP21, as consequências do mau uso do solo são mais sentidas em nível local do que global. Por isso, é exatamente no nível local que torna-se urgente pensar em políticas de mitigação, sem esperar diretrizes de níveis superiores, muitas vezes ineficazes e pouco adequadas aos territórios em que devem ser aplicadas.

As soluções estão equacionadas, mas como não são aplicadas suficientemente, a implementação é a exigência atual. A compensação por meio do reflorestamento, por exemplo, é uma das soluções. Também é necessário investir na formação de administradores locais, para que possam gerir o recurso solo adequadamente.