Agenda da comunidade, dinheiro público e adaptação pós catástrofe

Fiquei muito tocada pelo trabalho de Alejandro Avarena na reconstrução de espaços pós desastres naturais. Não sabia que ele desenvolvia trabalhos sociais de grande magnitude, sendo uma empresa privada. Também não sabia de sua sensibilidade para com o lado humanidade – as pessoas dentro das cidades, usufruindo de espaços nas cidades, experenciando as cidades.

Enquanto assistia a sua recente participação  no Ted Talk não tirei os olhos da tela de 15” de meu lap top em full screen. Alguns tópicos me chamaram a atenção e eu resolvi sistematiza-los aqui no Blog Entreposto: participação popular, revitalização de espaços pós catástrofe (desastres naturais) e dinheiro público.

Durante sua palestra no Ted Talk, ele aponta que fazer trabalhos bottow-up com a participação da comunidade requer um processo de escuta ativa sobre a agenda da comunidade para que o resultado concertado se transforme num mix da agenda de outros com a agenda da comunidade. Ele comenta sobre o vídeo feito durante a reunião pública convocada para a reconstrução do espaço.

Alejandro Aravena: I don’t know if you were able to read the subtitles, but you can tell from the body language that participatory design is not a hippie, romantic, let’s-all-drink-together-about- the-future-of-the-city kind of thing …

Em 2010, Chile vivenciou o desastre natural – terremoto e tsunami – de magnitude 8.8 da escala Richter e a empresa de Alejandro foi chamada para fazer a reconstituição de um espaço no sul do país e obras de adaptação para a mitigação de futuras catástrofes.

Alejandro Aravena: We were given 100 days, three months, to design almost everything, from public buildings to public space, strictly the transportation, housing, and mainly how to protect the city against future tsunamis. 

O trabalho por ele desenvolvido também mostra que a revitalização de espaços públicos pós desastre deve levar em conta os meandros culturais de sua população. Ao falar sobre as alternativas possíveis para o uso do solo, ele aponta como as diferenças culturais podem tornar ou não uma alternativa viável.

Alejandro Aravena: Forbid installation on ground zero. Thirty million dollars spent mainly in land expropriation. This is exactly what’s being discussed in Japan nowadays, and if you have a disciplined population like the Japanese, this may work, but we know that in Chile, this land is going to be occupied illegally anyhow, so this alternative was unrealistic and undesirable. 

Não só as questões culturais de ocupação do solo, mas acima de tudo, as percepções do uso do solo e a identidade com o solo que a população possui, foi o que levou o arquiteto a realmente considerar o que as pessoas estavam dizendo ao fazer política pública e obras de adaptação frente as alterações climáticas.

De acordo com Alejandro: And what they said was, look, fine to protect the city against future tsunamis, we really appreciate, but the next one is going to come in, what, 20 years? But every single year, we have problems of flooding due to rain. In addition, we are in the middle of the forest region of the country, and our public space sucks. It’s poor and it’s scarce. And the origin of the city, our identity, is not really connected to the buildings that fell, it is connected to the river, but the river cannot be accessed publicly, because its shores are privately owned.

A escuta ativa e a necessidade de obras de adaptação para a prevenção de futuros tsunami, leva a equipe do arquiteto a pensar um projeto de ocupação do espaço público que contemplasse as duas demandas: prevenção e acesso ao rio.

Alejandro Aravena: So we thought that we had to produce a third alternative, and our approach was against geographical threats, have geographical answers. What if, in between the city and the sea we have a forest, a forest that doesn’t try to resist the energy of nature, but dissipates it by introducing friction? A forest that may be able to laminate the water and prevent the flooding? That may pay the historical debt of public space,and then may provide, finally, democratic access to the river. So as a conclusion of the participatory design, the alternative was validated politically and socially, but there was still the problem of the cost: 48 million dollars.

Se há inovação na busca por uma resposta geográfica para um problema geográfico, há mais inovação ainda de como buscar o dinheiro para financiar as obras de adaptação. A equipe realizou uma pesquisa sobre financiamento público dentro dos orçamentos públicos em diversos níveis de governo e apontou, segundo Alejandro:

there were three ministries with three projects in the exact same place, not knowing of the existence of the other projects. The sum of them: 52 million dollars. So design’s power of synthesis is trying to make a more efficient use of the scarcest resource in cities, which is not money but coordination. By doing so, we were able to save four million dollars, and that is why the forest is today under construction

Após assistir ao Ted Talk do arquiteto chileno Alejandro Aravena, filmado em outubro de 2014, percebo cada vez mais que Adaptação para as Alterações Climáticas (e obras de adaptação para mitigar desastres naturais e catástrofes) requer um approach holístico, integral.

Também percebo que há lições aprendidas que indicam que a instância governamental, se quiser responder a seus cidadãos, precisa de dois ingredientes fundamentalmente humanos: ouvir e coordenar. Escutar o que as pessoas tem a dizer e os hábitos culturais que fazem delas o que elas são. Coordenar e agregar esforços o que é produto da inteligência e do engenho humano.

Biografia e currículo de Alejandro Aravena.

Vídeo e Transcrição Ted Talk de Alejandro Aravena.

A Terra e Nós: conflito de poder e cooperação para sobrevivência

A primeira parte da aula do Prof. Tim O’Riordan foi um depoimento de admiração pela Terra (planeta) e um apelo, prá lá de carinhoso, para que nós da espécie homo lutemos pela preservação da vida no único terreno galáctico em que ela floresceu. Para o Prof. Tim, estamos a viver num unique place que busca constantemente um processo natural de ajustamento desde que foi concebida a 4,5 bilhões de anos. Ainda que já tenha passado por diferentes movimentos de aquecimento e esfriamento, a Terra continua a buscar o equilíbrio em si mesma e, nos dias atuais, anda a lutar em busca de sua própria sobrevivência com tanto CO2 concentrado na atmosfera. A própria Terra, diz Prof. Tim, já colocou o CO2 para fora porque era muito quente. Agora, anda de novo às voltas com ele.

Ao desenvolver o seu argumento, Prof. Tim lembra que nós, seres da espécie homo, estamos acelerando esse aquecimento de uma maneira que nem nós estamos a compreender exatamente. O que sabemos, diz ele, como certeza científica, é que “there is trouble ahead”. Esse problema, tenha o nome de aquecimento global, concentração de CO2, alterações climáticas ou mudança do clima, deve e precisa ser enfrentado. Segundo Prof. Tim, a partir de três opções: “being brittle”, “thinking serious about it” e “taking the transformation approach”.

Após discorrer sobre cada uma das opções que temos como espécie homo para enfrentar o problema, Prof. Tim interrompe a lecture e passa a interagir com os acadêmicos incitando-nos a um posicionamento. “O que vocês têm a dizer sobre o que eu lhes falei?”, pergunta ele, buscando por nossa participação. Cutuca-nos perguntando qual o nosso papel e cutuca-nos respondendo que nosso papel é o da investigação, da pesquisa e do ensino.

Eis resumidamente o que explicou Prof. Tim sobre cada uma das três opções. A primeira opção – being brittle – é ficar como está e segurar o que tem e não se mexer. Segundo ele, isso pode ser feito pelos próximos 20 ou 30 anos, no entanto, as consequências de tal opção são agressivas e rodeadas de muitos estragos e destruição. Na avaliação do Professor, é a opção mais fácil, até porque reforça em nós a nossa inabilidade para alterar coisas e mudar. A segunda opção – thinking serious about it – é a opção que busca a redução dos impactos resultantes da aceleração que estamos a imprimir na dinâmica natural da Terra (aquecimento e esfriamento). Essa opção é a que corre atrás da economia circular, da redução de 30% de carbono na atmosfera, da mudança no perfil energético (de fóssil para renovável), do consumo ético e da produção responsável. A terceira opção – taking the transformation approach – é a da transformação social para um modo de vida, baseado num novo paradigma, a partir de pequenos passos num processo de aprendizagem contínuo, até um novo modelo de sociedade surgir. Sobre a terceira opção, Prof. Tim disse que vai aprofundar suas ideias na Lecture Two que ministrará na próxima semana.