A Terra e Nós: conflito de poder e cooperação para sobrevivência

A primeira parte da aula do Prof. Tim O’Riordan foi um depoimento de admiração pela Terra (planeta) e um apelo, prá lá de carinhoso, para que nós da espécie homo lutemos pela preservação da vida no único terreno galáctico em que ela floresceu. Para o Prof. Tim, estamos a viver num unique place que busca constantemente um processo natural de ajustamento desde que foi concebida a 4,5 bilhões de anos. Ainda que já tenha passado por diferentes movimentos de aquecimento e esfriamento, a Terra continua a buscar o equilíbrio em si mesma e, nos dias atuais, anda a lutar em busca de sua própria sobrevivência com tanto CO2 concentrado na atmosfera. A própria Terra, diz Prof. Tim, já colocou o CO2 para fora porque era muito quente. Agora, anda de novo às voltas com ele.

Ao desenvolver o seu argumento, Prof. Tim lembra que nós, seres da espécie homo, estamos acelerando esse aquecimento de uma maneira que nem nós estamos a compreender exatamente. O que sabemos, diz ele, como certeza científica, é que “there is trouble ahead”. Esse problema, tenha o nome de aquecimento global, concentração de CO2, alterações climáticas ou mudança do clima, deve e precisa ser enfrentado. Segundo Prof. Tim, a partir de três opções: “being brittle”, “thinking serious about it” e “taking the transformation approach”.

Após discorrer sobre cada uma das opções que temos como espécie homo para enfrentar o problema, Prof. Tim interrompe a lecture e passa a interagir com os acadêmicos incitando-nos a um posicionamento. “O que vocês têm a dizer sobre o que eu lhes falei?”, pergunta ele, buscando por nossa participação. Cutuca-nos perguntando qual o nosso papel e cutuca-nos respondendo que nosso papel é o da investigação, da pesquisa e do ensino.

Eis resumidamente o que explicou Prof. Tim sobre cada uma das três opções. A primeira opção – being brittle – é ficar como está e segurar o que tem e não se mexer. Segundo ele, isso pode ser feito pelos próximos 20 ou 30 anos, no entanto, as consequências de tal opção são agressivas e rodeadas de muitos estragos e destruição. Na avaliação do Professor, é a opção mais fácil, até porque reforça em nós a nossa inabilidade para alterar coisas e mudar. A segunda opção – thinking serious about it – é a opção que busca a redução dos impactos resultantes da aceleração que estamos a imprimir na dinâmica natural da Terra (aquecimento e esfriamento). Essa opção é a que corre atrás da economia circular, da redução de 30% de carbono na atmosfera, da mudança no perfil energético (de fóssil para renovável), do consumo ético e da produção responsável. A terceira opção – taking the transformation approach – é a da transformação social para um modo de vida, baseado num novo paradigma, a partir de pequenos passos num processo de aprendizagem contínuo, até um novo modelo de sociedade surgir. Sobre a terceira opção, Prof. Tim disse que vai aprofundar suas ideias na Lecture Two que ministrará na próxima semana.

O papel da ciência da sustentabilidade na construção de uma sociedade virtuosa

Por Rui Velasco (*)

Apesar da tranquilidade da sua voz, uma palavra perpassa todo o discurso do Prof. Tim O’Riordan: Urgência. A ampla base de conhecimento que a ciência tem conseguido reunir ao longo dos últimos anos, e que os relatórios do IPCC têm vindo a sintetizar, aponta para a necessidade de as sociedades humanas se conseguirem transformar rapidamente (durante a próxima década), de forma a procurar mitigar o impacto das acções antrópicas sobre o nosso planeta. Quanto menos conseguirmos efectuar essa transformação, maior será a factura a pagar, futuramente, em esforços para lidar com as consequências da adaptação.

Neste contexto de urgência, o Prof. Tim reserva um papel especial para os cientistas da sustentabilidade. Uma função central na criação de valor social e na articulação de diálogo e esforços entre entre populações com diferentes níveis de riqueza, diferentes perspectivas sociais, diferentes problemas de sustentabilidade. De acordo com a sua perspectiva, se a actual desigualdade se tornar endémica, é possível que as populações adoptem uma atitude de indiferença, com uma mentalidade de consumo orientada unicamente para o presente e sem qualquer preocupação com a sustentabilidade do seu comportamento. Para combater este cenário é necessário uma mudança no papel social do cientista da sustentabilidade, vestindo o fato de diplomata, de advogado, de comunicador e assumindo um maior envolvimento nas questões de debate social.

A intervenção da ciência passará assim, em grande medida, por conseguir demonstrar que a sustentabilidade terá que ser parte integrante de uma nova ordem mundial que funcione melhor do que a actual. Neste sentido, é importante que se verifique uma actuação da ciência a três níveis:

    • Como despertador de consciências, apresentando informação credível e inteligível que não possa ser ignorada pelas populações;
    • Como criadora da ligação entre comportamentos sociais e virtude, numa lógica de promoção da responsabilidade mútua e para com as gerações futuras;
    • Como disponibilizadora de opções credíveis para o consumo sustentável de energia, água e comida.

É um desafio imenso este que o Prof. Tim levanta, num Sábado de manhã, perante uma sala de jovens cientistas. No entanto, com a experiência de quem já percorreu o mundo a transmitir a sua esperança de futuro para a humanidade, ele relembra-nos que em muitas outras aulas, em muitas outras Universidades, a ciência da sustentabilidade continua a florescer e a promover uma nova sociedade que saiba cuidar de si e das gerações futuras. E nesse momento, cada um de nós se sente capaz de mudar o mundo para melhor…

* Rui Velasco é Geógrafo e meu colega no Programa Doutoral de Alterações Climáticas.