Sujeito ecológico: um ser ainda em formação (III)

O livro Inteligência Ecológica explica que os impactos na natureza podem estar na dimensão geosfera, biosfera e sociosfera. Essas dimensões estão incorporadas à Análise do Ciclo de Vida (ACV) dos produtos na hora de medir impactos positivos e negativos. No entanto, para além da métrica do impacto está a inovação nos processos e nas técnicas o que poderá ser o maior desafio do século XXI. Acompanha a inovação, a necessidade de definições transparentes e critérios sistematizados para que as auditorias, principalmente as auditorias sociais, possam comparar empresas, produtos e práticas.

No livro, Daniel Goleman não deixou de mencionar as limitações da ACV como, por exemplo, apontar as médias da indústria para os componentes, mas não para produtos acabados para o consumidor, e o fato de que os bancos de dados de ACV acabam sendo privados, e as empresas precisam pagar taxas para conhecer os impactos da cadeia de suprimentos. Também não deixou de abordar que o mundo empresarial está buscando integrar a sustentabilidade à estratégia dos negócios e resultados finais triplos, ou seja, resultados nas finanças, no ambiente e no social.

Geosfera trata de fontes naturais cuja formação levou eras para ser como é (água, solo e ar). É possível medir a carga de recursos de um produto (quantidade de matéria-prima consumida, tipo de contaminação gerada ou valor destruído). A dívida de um produto para com a natureza pode ser calculada como a soma dos recursos não renováveis esgotados, mais sua carga total ou impacto sobre a natureza. São métricas: rastro de carbono, carbono embutido (CO2 por quilo liberado na fabricação, transporte, uso e eliminação de um produto), eutroficação (impacto na água), biodegrabilidade (capacidade de decomposição ou não de microorganismos em formas úteis à natureza), consumo de água, utilização da terra, acidificação do solo dentre outras.

Biosfera trata da interligação dos ecossistemas. Há interações altamente complexas entre os genes e as substâncias químicas a que o Homem está exposto. São métricas: impacto do câncer, anos de vida ajustados por incapacidade, perda de biodiversidade, toxicidade personificada.

Sociosfera trata da presença humana e suas condições de trabalho na produção dos produtos. São os impactos humanos positivos ou negativos. As métricas envolvem tópicos de responsabilidade social e de balanço social das empresas.  São algumas delas: envolvimento com a comunidade, salários dignos, condições de trabalho, trabalho infantil, valorização das mulheres, certificação de comércio justo, assistência médica, respeito aos direitos humanos, dentre outras. Como a inclusão do impacto social na Análise do Ciclo de Vida é concebida por uma métrica qualitativa, em essência, vários fatores devem ser levados em consideração. Daniel traz o exemplo do ecoturismo dado por Gregory Norris. Se eco é só conservação da água e da energia e do uso de materiais verdes nas construções, outras questões ficaram de fora como será que as populações locais perderam o acesso à terra e à água para grandes corporações de desenvolvimento? Será que o lucro ajuda a melhorar as condições do local? Os empregos gerados pagam o suficiente para melhorar o padrão de vida da população? Houve aumento da criminalidade e dos problemas de saúde entre a população do local?

Serviço:

Análise do Ciclo de Vida (ACV)

http://www.sylvatica.com/about/team.php?lang=en

Referência:

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Ecológica: o impacto do que consumimos e as mudanças que podem melhorar o planeta. Tradução de Ana Beatriz Rodrigues. RJ: Elsevier, 2009.

Pitada de política: resíduos sólidos

No rastro da divulgação da exposição de Vik Muniz e da exibição do documentário Lixo Extraordinário, há de se falar de resíduos sólidos. Abaixo de cada retrato de catador no outdoor da Praça da República, em Brasília-DF, há uma legenda:

* Cada cidadão brasileiro produz em média, um quilo de resíduo por dia.

* Com a reciclagem o produto volta a seu ciclo de vida, economizando recursos naturais.

* A coleta seletiva está disponível em apenas 443 municípios dos mais de 5 mil existentes no Brasil.

* Mais de um milhão de pessoas trabalham e sobrevivem da reciclagem do lixo.

* Apenas 18% da população brasileira é atendida com o serviço de coleta seletiva.

* O Brasil perde anualmente cerca de R$ 8 bilhões por não fazer a correta reciclagem de seu lixo.

* Com a Política Nacional de Resíduos Sólidos todos os municípios brasileiros devem implantar a coleta seletiva do lixo.

Os números mostram o desafio de fazer render o lixo. Como bem disse o presidente Tião da Associação dos Catadores do Jardim Gramacho, durante entrevista no Programa do Jô, em 2010, “lixo é o que não tem mais reaproveitamento, somos catadores de material reciclável”. E reciclagem está alinhada com inclusão social, geração de renda, modernização tecnológica, desperdício zero, engenharia e logística reversa.

Serviço:

* Para ver a entrevista de Tião no Jô http://www.youtube.com/watch?v=p1knM0h1ZE0