Jon Stewart: Infoentretenimento e Climate Change

Hoje, quinta-feira, dia 6 de agosto 2015, foi o último programa de Jon Stewart à frente do The Daily Show, veiculado por Comedy Central. A matéria feita pela BBC dentro do estúdio ressaltou os motivos porque o nome de Stewart fica na história. Jon Stewart Last ShowQuando começou em 1999, vestiu a comédia e a sátira política com as roupas do jornalismo:  bancada, figura do âncora, reuniões de pauta, cenário, movimento de câmera, quadros fixos, entrevistados e correspondentes. Só que tudo era “fake news“, ou seja, um jornalismo de mentira – na verdade, um programa de sátira política.

O estilo tornou-se gênero. Stewart havia inaugurado o infoentretenimento. No Brasil, o gênero ganha notoriedade com o CQC, programa veiculado pela TV Bandeirantes, cujo âncora líder é Marcelo Tas, ícone de inovação em termos de programação televisiva, tendo criado, na década de 80, o repórter Ernesto Varela – “um repórter de mentira que faz perguntas para gente de verdade“.

Erneto Varela website

O CQC, na verdade, origina-se na Argentina e a TV Bandeirantes compra a marca do programa para veiculá-lo no Brasil a partir de 2008. A sátira política no Brasil dentro da televisão também conheceu outras histórias, como a da personagem desenvolvida por Chico Anísio chamada Salomé (uma senhora idosa que falava ao telefone), que, nos anos 80, criticava a ditadura militar brasileira pedindo a cabeça de João Batista, em analogia ao nome do presidente João Figueiredo.

Meu tributo a Jon Stewart é conhecer como Climate Change é tratado no The Daily Show. Resolvi fazer um levantamento e constituir um banco de dados. A primeira varredura utilizou o sistema de busca do próprio site. Essa varredura mostrou que Climate Change (Mudança Climática) e Global Warming (Aquecimento Global) foram ambos arquivados de maneira equivalente, inclusive com takes que se repetem em ambos os resultados num total aproximado de 70. O banco de dados ainda estar por terminar e já conta com 268 quadros que englobam desde clips do dia a entrevistas com personalidades. As personalidades que foram entrevistas mais de uma vez são Al Gore, Bill Clinton e Barack Obama.

À primeira vista, a sátira política sobre CC/WG abrange o âmbito doméstico dos Estados Unidos que domina os mais de 200 minutos até agora levantados. Stu, como ficou conhecido, também dedicou tempo à agenda global da política do clima, principalmente aos eventos relacionados às conferências das partes (COP), divulgação de relatório do IPCC, Climagate (vazamento de emails de cientistas do IPCC no Reino Unido) e o fracasso de Copenhagen, em 2009, em estabelecer avanços globais para o Protocolo de Kyoto. Assim que terminar o levantamento, escrevo um blogpost.

Paris Conference (vii)

O que trouxe para casa e balanço final

Além da experiência de divulgar o projeto do jogo Aventura Climática©, participar da Conferência permitiu perceber que nosso trabalho está engajado e em sintonia com os estudos sobre Climate Change e as transformações pelas quais vamos atravessar pelos próximos 30 anos. Quero ressaltar algumas coisas que trouxe para casa comigo.

The Guardian Conference1A primeira delas foi estar presente a uma audiência de mais de 200 cientistas e assistir todos, dentre eles eu e meu amigo, levantarem a mão quando perguntados se concordavam com a campanha do The Guardian, em parceria com a ONG 350.org, para desinvestimento em combustíveis fósseis. A campanha tem por objetivo convencer investidores a não colocarem dinheiro na economia marrom e sim na economia verde e na economia azul. A campanha vem ganhando mundo e contaminando as decisões de investidores jovens, já recebeu apoio formal das Nações Unidas e, nos Estados Unidos, vem ganhando terreno a partir dos protestos dos universitários para que as universidades desvinculem seus fundos do carbono. A Conferência abriu espaço para um debate com jornalistas sobre a campanha e o salão lotou na hora do almoço. As questões de escolha de pauta e do perigo de se tornar tendencioso em cobertura jornalística foram os elementos chaves do debate.

A outra coisa que trouxe para casa foram os indicativos sobre Política Global do Clima. Um dos indicativos é que o limite de 2°C já não é possível. Se a comunidade política trabalha com esse número para poder avançar, a comunidade científica já está trabalhando com high-end cenários e situações mais extremas após 2050. A superfície da Terra já aqueceu cerca de 1°C e as reduções de emissão de carbono não avançam na proporção necessária para estabilizar o aumento da temperatura. Outro indicativo é que o IPCC mudará a forma como entregará relatórios à comunidade política. Alguns autores líderes apontam a necessidade de relatórios de curto prazo e com abrangência de mais setores. Outros deixam no ar que é preciso mais engajamento da Ciência na Política. O terceiro indicativo é que Política do Clima vai viver nos próximos anos um florescer de experiências locais, comunitárias, circunscritas a um determinado espaço geográfico. Os grandes acordos globais continuam sendo guarda-chuvas, mas as transformações nascerão dentro das municipalidades e serão resultados da capacidade de articulação de cidadãos e comunidade política.

O time de jornalistas produziu uma newsletter com um balanço final da Conferência.

O website oficial da Conferência traz os links e os documentos finais.